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A liberdade de expressão como um ato de coragem

Por Hugo Schneider Côgo - Associado II do Instituto Líderes do Amanhã.

Não é exagero dizer que, com a internet, o exercício da liberdade de expressão se tornou um legítimo ato de coragem perante uma audiência que pode se mostrar extremamente reativa a determinadas pautas.

De um lado, a hiperexposição possibilitada pelas redes sociais e aplicativos de mensagens alterou profundamente o nosso comportamento nos meios digitais, na medida em que passou a permitir a externalização de pontos de vista sobre qualquer assunto para um público potencialmente ilimitado.

De outro, essa hiperexposição revela seu lado mais sombrio quando, de maneira cada vez mais recorrente, uma opinião dissonante ou polêmica serve de gatilho para o público ostracizar seu emissor. Trata-se do fenômeno do “cancelamento”, que, embora não seja novo em sua essência, dado que pessoas sempre foram julgadas por suas opiniões, assumiu uma nova roupagem em um mundo conectado pela internet, no qual pessoas podem ser efetivamente isoladas em função de suas ideais.

Um exemplo recente que ilustra com perfeição o que se quer dizer envolveu o youtuber Bruno Aiub, também conhecido como Monark. Em 07.02.2022, ao entrevistar os deputados federais Kim Kataguiri e Tabata Amaral no Flow Podcast, um podcast do qual é cofundador e que possui uma das maiores audiências do Brasil, Monark argumentou que “o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei” e que “se o cara quiser ser um antijudeu, eu acho que ele tinha o direito de ser”. Segundo ele, a partir do momento em que as pessoas se sentem livres para dizerem o que realmente pensam, pode-se identificar mais facilmente os seus verdadeiros valores. Com isso, para Monark, facilitar-se-ia o combate à disseminação de ideias odiosas, tais como aquelas propagas sob o nazismo, que poderiam então ser abertamente refutadas.

Em que pese em nenhum momento Monark tenha defendido a ideologia nazista, o exemplo utilizado implicou sérias consequências para o youtuber e para o Flow, que foram temporariamente suspensos do Programa de Parcerias do Youtube e, consequentemente, perderam a monetização dos anúncios veiculados. Além disso, Monark foi desligado do Flow e o youtuber anunciou a própria retirada das empresas das quais é sócio.

A análise das reações à entrevista de 07.02.2022 revela que a tese proposta por Monark (ideias ruins devem poder circular livremente para que possam ser amplamente rechaçadas) às vezes nem é lembrada, uma vez que se passou a prestar relevância exclusivamente ao exemplo utilizado (um partido nazista no Brasil deveria ser legalizado), pois existiria, aí, uma suposta apologia ao nazismo, a qual é negada pelo próprio youtuber.

Nesses casos, em que a reação passional do público e do mercado é intensa ao ponto de eficazmente determinar quais conteúdos podem ou não ser circulados, gera-se o risco de uma interdição dos debates. Afinal, com a inibição da troca aberta e franca de ideias, que pressupõe a utilização de argumentos racionais e bem fundamentados, como aqueles apresentados pela deputada entrevistada, Tabata Amaral, a própria discussão pode ficar completamente inviabilizada.

No âmbito das “pessoas comuns”, não raro a sua interação nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens é condicionada pelo receio das reações de indivíduos que, sob o manto da distância e do quase anonimato propiciados pela internet, sentem-se à vontade para agredir aqueles que compartilham opiniões distintas das suas. Até mesmo entre aqueles que pensam como Monark, quantos estariam realmente dispostos a suportar o ônus de publicar, por exemplo, que é desejável que todas as ideias sejam livremente compartilhadas, para assim se expor e combater as opiniões mais grotescas e repulsivas e, ainda, mencionar especificamente o nazismo para ilustrar o raciocínio?

Nesse contexto, os aborrecimentos e os receios decorrentes do exercício amplo da liberdade de expressão tornam extremamente atraente o conforto e a segurança proporcionados pelo silêncio. Quando o debate perde espaço para a busca de destruição de reputações, a discordância respeitosa e argumentada, que é imprescindível para a prevalência das boas ideias e deve ser sempre estimulada, vai sendo progressivamente substituída pela violência.

Diante disso, com as pessoas se sentido cada vez menos livres para dizerem o que realmente pensam, ganham destaque, positiva ou negativamente, aqueles indivíduos dotados de bravura o bastante para ousarem fazê-lo sem se sentirem intimidados. Então, chega-se à triste conclusão de que, paradoxalmente, no mundo hiperconectado da internet, o pleno exercício da liberdade de expressão se tornou um ato de coragem de pessoas que ainda se atrevem a expor as suas opiniões.

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